2019, Futurologia

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No futuro, as palavras serão as mesmas mas as relações entre as palavras serão totalmente diferentes. Onde se lia humano e humanidade, ler-se-á aquele que partilha a biosfera, seja de que forma for, seja de que tamanho for, seja de que espécie for. A palavra espécie assim como a palavra género serão sucata terrestre, lixo, restos de um poder exercido que perde o sentido à medida que se identifica (não se identifica, identivai-se). Onde se lia violência, ler-se-á predação, porque antes foi lido desigualdade e hierarquia. Seremos pela predação porque esta ocorrerá como regulação sofisticada de posições políticas dos seres, como jogo de viver e morrer que ninguém controla, como superação da homofonia entre as palavras lei e rei. Por outro lado, onde antes se dizia bio falar-se-á geo e nem mesmo o vivo será separado do não-vivo, porque onde se gritava antropofagia!, será afirmado geofagia!, capacidade de ingestão do não-vivo, do profundo pacto com as rochas. Terá especial cuidado quem estiver morto. Terá especial cuidado quem estiver vivo. Abrir o coração e sentir o corpo vivo, como antes se fazia em bares ou camas, será a especialidade dos geofágicos, dos que passam entre a vida e a morte como entre gotas de chuva [ou balas], dos que chupam e são chupados pela terra. Entre a vida e a morte teremos dificuldade em estabelecer fronteiras porque a palavra fronteira ficará gradualmente manchada por títulos funestos: colónia, império, reinado, família. Assim, onde antes existiam checkpoints para delimitar separações, surgirão lugares imensos entre-as-coisas, purgatórios queer, ou tão-só reservas-ilimitadas-sobre-o-que-ainda-não-se-sabe-e-tão-pouco-se-quer-saber. Para aumentar essas reservas serão reaproveitados aeroportos, parques de estacionamento e outros espaços que simplesmente perderam o sentido. O regime de extração da terra estender-se-á às fontes minerais dos corpos humanos, e essas reservas servirão essencialmente como depósitos de cálcio, fósforo, ferro, sódio, enxofre, potássio ou zinco para o financiamento de novas estruturas vertebrais do tempo, i.e., [passado = estrela + osso] ou [presente = enxofre + futurozinco]. Se algumas situações continuarão a reenviar-nos para um sistema tradicional de formas teimosas, nessas reservas (dos lugares entre lugares) será possível amar o transfóssil, jogar à nova humanidade enquanto se fura a casca de um ovo, deslizar e sobreviver, beber cocktails de saliva com os microsseres das nossas línguas. A linguagem será então uma constante luta pela demarcação de novos povos, enquanto corpos se abrem à polimorfia. Farrapos humanos que sofreram no passado atrocidades petroquímicas (por exemplo, a violação da terra pela busca de sangue preto [= petróleo]) ou atrocidades sociotóxicas (por exemplo, o abuso de pessoas de pele escura [= racismo]) poderão recorrer a tratamentos vários para a cura e desintoxicação política intersexo. Então, onde se lia estratosfera, será lido extratosfera, pela combinação entre extração e atmosfera. Identificar-se-á uma parcela de dor entre palavras, sons e ritmos, como quem extrai da boca um dente [ente], como quem reconhece a drenagem de recursos sanguíneos, como quem reconhece a transformação de certos corpos em objetos. De maneira geral, quem orientará a realidade já não será aquele serzinho de duas pernas que diz olá e adeus, aquele antigo boneco da humanidade que dependia da palavra universal e desejava para o futuro testes de escolha múltipla. Esse boneco, depois de reformado e cosido com novos botões, será entregue ao cozimento da panela (gritaremos antropofagia!), erguer-se-á novo [ovo] para liberar homúnculos quiméricos da biosfera (gritaremos geofagia!). O boneco cozerá por séculos, enquanto nada, em nenhum momento, em nenhum lugar, caso, casa, hipótese, passado, presente, narrativa, acontecimento, futuro, projeção – de maneira alguma e sob que circunstância for – poderá ser [ou tentar-se fazer passar por] universal. Ao lado de cada polihumano, existirá um armário, uma gaveta, um planeta, um peixe, um tronco ou uma coisa extremamente localizável, muito singular, muito preta, muito amarela, muito dorida, muito fodida, a assistir a uma reunião sobre o futuro humano ovo. E ela gritará no meio dessa reunião: “Aqui não sou representada!”; “Aqui não podemos concordar sobre coisas básicas!”; “Aqui não podemos ter a certeza de que somos todos humanos!”; ou “Aqui fala-se a língua da desconfiança!”. Essas reuniões servirão sobretudo para nos lembrar como funcionava a política antiga e como ela continua a viver no futuro com novas roupagens. As contradições entre o novo e velho, agora chamadas de mitologia expandida, não deixarão de se fazer notar. Assim, dentro da forma humana, as deformações ocorrerão: problemas de pele, cancros, vaginites, clitóris triplos, cérebros calcificados. O passado surgirá sobre a forma de metástases, indicando a necessidade de tratamento por expansão mórfica. Já do lado de fora da forma humana, será a foda universal: bactérias expressivas, cálcio eufórico, política celeste, violência panpsíquica. Fazer um mapa dessa humanidade será então como traçar com as pontas dos dedos: as impressões digitais apagam-se para fazer o tal mapa. Aliás, existirá porventura a palavra forma no futuro? Não será tudo desígnio da predação que, qual sistema futurológico, implicará a constante negociação do que significa ter uma forma? Sonhar com pedras ou pronomes indicará o caminho de mudanças físicas concretas e toda a cartografia será como desenhar na areia das multinaturezas, contínua des-informação das formas ou tão-só uma língua que não consegue passar pelo ralo.

[A partir de um excerto da performance-conferência Geofagia (2018) da autora.]

Publicado em Coreia. –Coreia é um projecto editorial de carácter artístico, crítico e discursivo, a propósito das artes em geral, firmado numa relação umbilical com a dança. Independente, experimental e internacionalista, o jornal, de tiragem semestral e distribuição gratuita, está focado no discurso produzido pelas obras e pelos artistas, e preocupado em divulgar formatos vários como partituras, manifestos, entrevistas, crónicas, ensaios, críticas e reflexões em língua portuguesa. Coreia é impresso e distribuído em papel em todo o território nacional. A cada nova edição, é disponibilizada online a edição anterior.

the west

Poesia

Se as 6000 línguas e culturas que existiam no mundo eram florestas nativas da mente e o inglês e o neoliberalismo são as monoculturas de hoje que tudo achatam, que podem fazer os que nasceram já dentro dessas monoculturas como nós:

a) ensimesmar-se e deixar de fazer o papel de paterfamilias de outras culturas?

b) buscar e relacionar-se com a sua origem antes da chegada da monocultura, vide para os portugueses, a sua floresta nativa árabe e judaica?

c) partir de outras configurações de ecossistema da cultura e, através das redes socio-técnicas, buscar a sustentabilidade e a diversidade das florestas mentais?

UM POEMA MISTICO É UM CADÁVER NA TORRADEIRA

Poesia

 

Tenho a barriga dura e enfeitiçada, cheia de líquidos verdes
Tenho vontade de ouvir cânticos mortos
Tenho um olho fechado sobre áfrica
Aprecio tentativas de boicotar qualquer tipo de MERDA.
Acho que deus não morreu, é só brincadeira das farmácias para vender mais aspirina.
Nem mais uma aspirina nesta barriga.
Horror da desatenção sobre os corpos.
Quero macumba.
Quero-me curar.
Comprei o jornal.
Não abra a pagina da publicidade, senhor polícia
Senhor feiticeiro, abra uma garrafa de vinho
derrame-a sobre o meu corpo
mate uma galinha.

Alto e paira o baile! (disse o polícia)

Alto e paira o baile! (disse o vegetariano que passava)

Acabou-se a festa, há guerra no Irão.
Temos que escrever um livro
Sobre a DESINTEGRAÇÃO .