
“Geofagia” é a vontade ou hábito de comer terra. Alguns pagagaios comem argila vermelha num ato de automedicação. Um mito Yanomami começa assim: “essa é a história dos nossos antepassados que aos poucos se multiplicaram. Ela começa na época em que não havia Yanomami como os de hoje. Os comedores de terra sofriam, porque eles comiam terra. Nós também quase teríamos sofrido, como as minhocas, por cavar a terra e tomar vinho de barro, se não fossem os acontecimentos que seguem.” O modelo colonial, iniciado precocemente por Portugal no século XVI, está intrinsecamente ligado ao desenvolvimento de uma visão da terra como materialidade particular, um bem de natureza possessiva usado com fins muito precisos: a extração de recursos naturais e a propriedade privada. Com o assentamento colonial, Portugal comeu literalmente a terra dos povos autóctones, comeu também a sua visão da terra, os seus modos de viver e pensar com os pés na terra. Muito se fala sobre o ato glorioso da navegação mas aqui propõe-se lembrar que, para muitos povos, os Portugueses foram grandes “comedores de terra”, num gesto mais próximo do transtorno alimentar do que da medicina.
[EN] Eating earth is the common ground to a narrative that joints colonial eagerness, recent mining disasters in Brasil, Yanomami indigenous myths on geophagy, and the medical literature on the disease of eating earth during colonial times.
Duration 45min
Performance e text Rita Natálio
Text excerpts Queda do Céu, David Kopenawa e Bruce Albert (2015), Os comedores de Terra, coletânea de mitos falados por Pajés Parahiteri (2016) A oleira ciumenta de Claude Lévi-Strauss (1986) | Images: Duelo a garrotazos de Goya (1818-1823), Castigo de Escravos de Jacques Etienne Arago (1839), documentação do contra-bólide Devolver a terra à terra de Helio Oiticica (1979), L’enfant geophage de E. Riou, 186-, entre outras | Film excerpts : Davi contra Golias – Yanomami de Aurélio Michiles (1994) | Excertos de músicas Muddy River de Laurie Anderson (1994), Joana Dark de Ava Rocha (2018).
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